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Saúde: desafios e caminhos para fortalecer a produção nacional

Painelistas discutem a importância de políticas integradas para impulsionar a indústria brasileira de dispositivos médicos.

Durante a programação exclusiva promovida pela ABIMED na Hospitalar 2025 — a maior feira de saúde da América Latina — especialistas debateram os avanços e os desafios da política industrial no setor de dispositivos médicos, destacando a importância de estratégias integradas para impulsionar a produção nacional, a inovação e a inserção do Brasil no mercado global.

O debate contou com a mediação de Fernando Silveira, presidente executivo da ABIMED, e a participação dos palestrantes Márcio Guerra, superintendente do Observatório Nacional da Indústria, e Uallace Moreira, secretário de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que compartilharam reflexões sobre os rumos da política industrial brasileira e a necessidade de articulação entre governo, setor produtivo e sistema de inovação.

Missões industriais e o papel estratégico da saúde

Uallace Moreira ressaltou que o Brasil vem avançando na construção de uma política industrial baseada em missões estratégicas, com destaque para o Complexo Econômico-Industrial da Saúde.

Segundo ele, embora o financiamento ainda seja inferior ao de setores como o agronegócio, já há um esforço relevante de direcionamento de recursos, especialmente via BNDES.

“O curioso é que, mesmo com limitações, escolhemos saúde como uma das grandes prioridades. A política industrial tem a ver com escolhas difíceis, mas necessárias”, afirmou Uallace.

Ele destacou que a saúde é um setor mais estruturado para o diálogo, pois envolve três dimensões: produção, ciência e assistência pública.

Para ele, é essencial trabalhar o fortalecimento das cadeias produtivas, com paciência e visão de longo prazo:

“Somos uma economia diversa, mas precisamos criar cultura e consciência sobre nossas capacidades produtivas e nichos de excelência, especialmente na área de equipamentos médicos.”

A necessidade de integração e inovação

Márcio também destacou os esforços do MDIC e do Observatório da Indústria para analisar dados históricos de importação e consumo na área da saúde, o que tem embasado a construção de rotas tecnológicas específicas: química, equipamentos médicos e biotecnologia.

“A ideia é aproximar o setor produtivo da pesquisa acadêmica, criar ecossistemas e fomentar uma estrutura industrial capaz de atender o mercado interno e também acessar mercados externos”, explicou.

Segundo ele, essa mobilização é fundamental não apenas para reduzir a dependência do Sistema Único de Saúde (SUS), mas para garantir sustentabilidade e competitividade para a indústria nacional.

Convergência regulatória e desafios institucionais

Outro ponto central do debate foi a necessidade de superar gargalos institucionais, especialmente na área regulatória.

Márcio Guerra, apontou que o Brasil precisa evoluir em temas como o fortalecimento da Anvisa, cuja estrutura atual enfrenta dificuldades para dar conta da crescente demanda de processos de liberação de produtos e medicamentos.

“Temos que avançar na convergência regulatória, mas de forma equilibrada, para que não seja um processo de mão única, prejudicando a indústria nacional”, alertou.

Ele também ressaltou a importância de integrar políticas de qualificação profissional, acesso ao crédito e estratégias de pesquisa e desenvolvimento (P&D).

O papel da indústria e o risco de perder oportunidades

Fernando Silveira reforçou a necessidade de políticas industriais que considerem o timing adequado para incentivar o desenvolvimento tecnológico.

Ele chamou atenção para o fato de que, no Brasil, existem 47 plantas industriais na área da saúde, mas grande parte delas fabrica itens que a indústria local ainda não produz com autonomia.

“Quer se trate de produtos de baixa ou alta tecnologia, é fundamental compararmos nossa capacidade produtiva com a de outros países e pensarmos políticas que atraiam investimentos. Hoje, o Brasil ainda não oferece um ambiente suficientemente atrativo para as empresas detentoras de tecnologia de ponta”, avaliou.

Fernando alertou para o risco de o país perder espaço estratégico no setor, justamente por não oferecer mecanismos claros e estáveis que garantam segurança jurídica e apoio estatal contínuo.

Caminhos para o fortalecimento do setor

Para os especialistas, a construção de uma política industrial eficaz para o setor da saúde demanda ações coordenadas em múltiplas frentes: financiamento, ambiente regulatório, inovação, qualificação profissional e integração territorial.

Márcio destacou que a experiência internacional mostra que políticas industriais bem-sucedidas apostam na articulação entre pesquisa, produção e educação: “Não podemos esperar que apenas as Forças Armadas corram todos os anos atrás de soluções.

Precisamos de uma política de Estado robusta, que articule atores e promova o desenvolvimento da nossa base industrial.”

Por fim, os participantes ressaltaram que, embora a política industrial seja ainda recente e em processo de amadurecimento, o Brasil está no caminho certo, com oportunidades concretas para fortalecer sua posição no cenário internacional.

“É preciso avançar e garantir que a indústria nacional de dispositivos médicos se torne não apenas mais forte, mas também exportadora, superando o custo e se inserindo plenamente nas cadeias globais de valor”, concluiu Márcio.

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