Em um ano eleitoral e de fortes transformações, o Dr. Gonzalo Vecina Neto analisa os desafios que irão moldar a saúde brasileira em 2026, com foco em acesso, governança, incorporação tecnológica e o futuro do SUS diante das desigualdades e do envelhecimento da população.
Fundador da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), um dos idealizadores do Sistema Único de Saúde (SUS) e referência histórica no pensamento sanitário brasileiro, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto é uma das vozes mais qualificadas para analisar os caminhos da saúde no Brasil. Com trajetória que transita entre a formulação de políticas públicas, a gestão de sistemas complexos e a formação acadêmica, Vecina acompanha, desde a origem, os avanços, desafios e contradições do modelo de saúde brasileiro.
Professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, mestre em Administração pela FGV e ex-secretário municipal de Saúde de São Paulo, Gonzalo teve papel central na estruturação da vigilância sanitária nacional e segue atuando ativamente no debate sobre governança, financiamento, inovação e equidade no acesso à saúde.
Na primeira edição do ano da Healthcare Management, o convidamos a olhar para frente. Em um contexto marcado por transformações demográficas, aceleração tecnológica, restrições orçamentárias e um cenário político-eleitoral decisivo, o Dr. Gonzalo Vecina Neto analisa as Perspectivas da Saúde para 2026, abordando temas como acesso, envelhecimento da população, incorporação tecnológica, regulação, desigualdades e os desafios estruturais do SUS e da saúde suplementar.
A seguir, o especialista responde às principais questões que devem moldar o setor da saúde no Brasil no próximo ciclo.
“O grande desafio da saúde brasileira não é apenas dinheiro, é a falta de integração entre municípios, estados e União. Sem governança regional, o SUS desperdiça recursos e perde eficiência.”
1. Ao olharmos para 2026, quais são, na sua avaliação, os principais fatores que irão moldar o setor da saúde no Brasil?
2026 será um ano eleitoral e, como sempre ocorre nesses períodos, a saúde estará no centro do debate público, ao lado de temas como segurança. Vamos discutir intensamente o que fazer para melhorar um setor que, apesar dos desafios, tem apresentado avanços importantes.
A sociedade brasileira passou a olhar o SUS com mais reconhecimento após o que ele conseguiu realizar durante a pandemia. Houve um avanço significativo na percepção sobre sua importância. No entanto, a questão do acesso continuará sendo um dos principais pontos de discussão no processo eleitoral.
Os sucessos do SUS certamente serão apropriados por alguns candidatos, assim como seus insucessos também estarão em evidência, especialmente no que diz respeito ao acesso: acesso a especialistas, exames, cirurgias e procedimentos de maior complexidade. Esses temas serão muito explorados.
Além disso, veremos comparações entre diferentes modelos e experiências, inclusive aquelas que extrapolam a esfera federal, como iniciativas estaduais. Em São Paulo, por exemplo, embora ainda pouco perceptível para a população, há um esforço relevante com o chamado SUS Paulista, que envolve a alocação de recursos adicionais do governo estadual na saúde. Esse tipo de experiência certamente fará parte do debate.
2. O sistema de saúde brasileiro chega a 2026 mais fortalecido ou mais pressionado? Em quais aspectos essa pressão é mais evidente hoje?
As duas coisas são verdadeiras. O SUS chega a 2026 ao mesmo tempo mais fortalecido e mais pressionado. A pressão cresce a cada ano e, em um ano eleitoral, ela se intensifica ainda mais.
Essa pressão será especialmente evidente no acesso: acesso a tecnologias, medicamentos, novas soluções terapêuticas, cirurgias, robótica e também no acesso cotidiano, como consultas, exames e atendimento especializado.
Esses temas estarão fortemente presentes na propaganda eleitoral. O governo federal deve enfatizar programas ainda em implantação, como Mais Médicos, Mais Especialistas, atenção primária à saúde, entre outros. Os governos estaduais também farão o mesmo, pois estarão igualmente pressionados.
Além da eleição presidencial, teremos eleições para governadores e para todo o Legislativo, o que torna 2026 um ano politicamente muito intenso para o setor da saúde.
3. Como o senhor enxerga o papel do SUS em 2026 diante do envelhecimento da população e do aumento das doenças crônicas?
O envelhecimento da população e o aumento das doenças crônicas são processos irreversíveis. Doenças cardiovasculares, câncer e os efeitos do crescimento da obesidade já fazem parte da realidade brasileira. Hoje, surgem medicamentos como os agonistas de GLP-1, extremamente eficazes no controle da obesidade, mas com custos muito elevados, o que traz novos desafios ao sistema.
É preciso lembrar que o SUS é fruto de uma ação tripartite em um país que, desde a Constituição de 1988, não conseguiu articular de forma adequada as responsabilidades entre União, estados e municípios. Em tese, os municípios cuidam da atenção primária, os estados da média e alta complexidade, e o governo federal das grandes políticas nacionais. No financiamento, cerca de metade vem da União, com o restante dividido entre estados e municípios.
O governo federal tem grande capacidade de indução, mas a assistência em saúde acontece, principalmente, nos municípios, com participação dos estados nos procedimentos mais complexos. O problema é que não há um modelo de governança integrada. Municípios e estados atuam de forma paralela, sem articulação efetiva, o que gera grande ineficiência.
Esse problema é estrutural e vem desde a concepção do SUS. A Constituição deu muita autonomia aos municípios, e isso cria dificuldades, sobretudo quando observamos que apenas cerca de 600 municípios têm mais de 50 mil habitantes, e apenas 103 têm mais de 200 mil. Esses municípios maiores, com maior capacidade de financiamento, muitas vezes criam hospitais e ambulatórios próprios, funcionando de forma independente da rede estadual.
Na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, são 39 municípios para cerca de 18 milhões de habitantes. Muitos desses municípios possuem hospitais e ambulatórios próprios que não se integram às redes estaduais, onde está a maior oferta de leitos, consultas e exames especializados. Isso resulta em desperdício de recursos e baixa eficiência.
O grande desafio é criar redes articuladas, com governança conjunta entre estados e municípios, sem hierarquia rígida, mas com integração real. Esse é um passo essencial para enfrentar o envelhecimento da população e o aumento das doenças crônicas.
4. Na prática, quais são atualmente os maiores gargalos do sistema de saúde brasileiro: financiamento, gestão, força de trabalho ou governança?
O SUS é subfinanciado. O Brasil gasta cerca de 10% do PIB em saúde, mas apenas 40% desse valor é gasto público. Como 75% da população depende do SUS, isso significa que a maior parte da população depende de uma parcela menor do financiamento total, enquanto os 25% que usam a saúde privada se beneficiam de 60% do gasto.
Nos países desenvolvidos, o gasto em saúde também gira em torno de 10% do PIB, mas com pelo menos 60% de gasto público. Portanto, o financiamento é, sim, um problema. No entanto, não vejo perspectiva de aumento significativo de recursos no curto prazo, especialmente em um contexto de turbulência eleitoral e de desafios econômicos globais, além das crescentes demandas geradas pelas mudanças climáticas.
Diante disso, a alternativa é melhorar a gestão e a governança. Precisamos olhar para regiões de saúde, e não para municípios isolados. Regiões metropolitanas e áreas com forte integração demográfica devem ter governança conjunta entre estados e municípios. Já existem experiências nesse sentido em estados como Santa Catarina, Minas Gerais e Ceará, mas ainda são insuficientes.
Outro ponto central é a terceirização da gestão, que vem crescendo tanto em hospitais quanto na atenção primária. As organizações sociais podem ser mais eficientes, pois não estão sujeitas aos mesmos entraves burocráticos. No entanto, essa eficiência exige do poder público uma forte capacidade de fiscalização, controle e punição em caso de desvios.
Hoje, esse é um dos grandes desafios: o Estado precisa aprender a contratar, monitorar e punir quando necessário. Não vamos conseguir aumentar significativamente os recursos, então precisamos melhorar a gestão e a governança.
Quanto à força de trabalho, especialmente médica, caminhamos para um cenário com muitos profissionais e grande parte deles mal formados. Apenas cerca de 40% dos médicos formados terão residência. A formação médica exige residência, e o SUS terá que assumir um papel central na qualificação desses profissionais, em parceria com estados, municípios e universidades.
5. A vigilância sanitária tende a ganhar ainda mais protagonismo nos próximos anos. Quais serão os principais desafios regulatórios em 2026?
A vigilância sanitária está diretamente ligada ao acesso à tecnologia, tanto dura quanto leve: medicamentos, equipamentos, exames e novos procedimentos. Nenhuma tecnologia pode ser ofertada à sociedade sem aprovação da Anvisa, pois toda tecnologia carrega riscos potenciais à saúde.
O principal desafio da vigilância sanitária é ser mais ágil na entrega de respostas, sem abrir mão da avaliação rigorosa de segurança e eficácia. Isso faz com que a vigilância sanitária seja vista, muitas vezes, como um obstáculo tanto ao acesso à tecnologia quanto à atividade econômica.
É importante compreender que a vigilância sanitária não é apenas um instrumento sanitário, mas também econômico. Ela influencia geração de empregos, substituição de importações e potencial de exportação. A área da saúde, historicamente, tende a subestimar essa dimensão econômica da vigilância sanitária, e isso precisa mudar.
“Não pode existir uma solução em saúde para quem pode pagar e outra, pior, para quem depende do SUS. A incorporação de tecnologia precisa ser uma política de Estado, não um privilégio.”
6. O avanço acelerado de novas tecnologias, medicamentos e dispositivos médicos exige uma revisão dos modelos tradicionais de regulação?
Sim, exige. Isso está acontecendo no mundo todo. Uma das discussões centrais é sobre a forma de garantir qualidade e segurança dos processos produtivos.
Para produtos de menor complexidade e menor risco, é possível avançar para modelos baseados em atos declaratórios, nos quais o próprio produtor certifica a conformidade com padrões de qualidade, desde que haja fiscalização adequada. Já produtos de alto risco, como injetáveis, exigem controles mais rigorosos.
Um ponto mal resolvido no Brasil é a impunidade. Quando há desvios, é fundamental que haja punição efetiva. Não importa se a punição é maior ou menor; o que importa é que ela exista. Políticas públicas bem-sucedidas, como o uso do cinto de segurança ou o controle do tabagismo, funcionaram porque havia punição.
Para avançar na regulação sanitária, precisamos investir em digitalização, inteligência artificial e tecnologia, mas sempre associadas à capacidade real de fiscalização e punição. Só assim a tecnologia pode ser usada a favor da sociedade.
7. A incorporação de tecnologias digitais, inteligência artificial e dados em saúde é inevitável. O sistema brasileiro está preparado para esse avanço?
Não, não estamos preparados. Estamos longe disso. O mundo inteiro está aprendendo a utilizar tecnologia da informação para transformar a realidade, e o Brasil faz parte desse processo.
Esse avanço exigirá políticas públicas consistentes. Um caminho importante é a organização em redes interoperáveis. Não precisamos de um único software de gestão hospitalar, mas de sistemas capazes de se comunicar entre si, como ocorre no setor bancário.
O desafio é criar articulação entre produtores de soluções tecnológicas e os usuários dessas soluções, tanto no SUS quanto no setor privado. Isso é possível, mas exige coordenação e visão estratégica.
8. Existe o risco de ampliarmos desigualdades em saúde com a adoção acelerada de novas tecnologias? Como mitigar esse cenário?
O risco é enorme. Hoje, cerca de 95% das cirurgias no setor privado são feitas por videolaparoscopia, enquanto no SUS esse percentual gira em torno de 5%. Isso significa internações mais longas, maior risco de infecção e piores desfechos para os pacientes do SUS.
A incorporação tecnológica é fundamental para ampliar o acesso e melhorar resultados. O grande desafio é evitar que haja uma solução para quem pode pagar e outra, inferior, para quem não pode.
A mitigação passa por dois caminhos. Primeiro, uma vigilância sanitária eficiente, garantindo segurança e eficácia. Segundo, uma avaliação robusta de tecnologias em saúde. Países como a Inglaterra criaram, ainda nos anos 1990, instituições como o NICE, responsável por avaliar tecnologias para todo o sistema público.
No Brasil, precisamos discutir um caminho único para a incorporação tecnológica. Não pode ser “quem paga, tem”. O acesso à tecnologia deve ser pensado como política de Estado, voltada para toda a população, ainda que algumas soluções extremamente complexas e caras não estejam disponíveis no país.
9. Como o senhor avalia a relação entre saúde pública e saúde suplementar hoje e quais ajustes são necessários para torná-la mais sustentável em 2026?
Sempre haverá espaço para a iniciativa privada no Brasil, e isso inevitavelmente gera diferenças de acesso, inclusive em termos de qualidade e rapidez. O SUS e a saúde suplementar continuarão coexistindo.
O desafio é regulamentar adequadamente a saúde suplementar e garantir que o SUS cumpra seu papel. Em algumas áreas, como transplantes e alta complexidade, é possível e desejável haver integração entre o público e o privado sem ampliar desigualdades.
As filas no setor privado sempre serão menores, e o conforto será diferente. O que não pode acontecer é a fila ser causa de morte no setor público. Isso é o que precisamos resolver.
Parte da solução passa pelo financiamento, parte pela gestão e parte pela criação de instrumentos como uma CONITEC única para o setor público e privado. Existem propostas nesse sentido em tramitação no Congresso, mas dificilmente isso se concretizará já em 2026.
10. Se pudesse elencar três prioridades urgentes para a saúde brasileira em 2026, quais seriam e por quê?
A primeira prioridade é a integração federativa, com a criação efetiva de regiões de saúde e modelos de governança compartilhada entre municípios e estados.
A segunda é a avaliação de tecnologias em saúde, com a universalização da CONITEC para o setor público e privado.
A terceira é o aumento da eficiência no uso dos recursos do SUS, por meio de um controle mais rigoroso da terceirização da gestão. No médio prazo, não vejo alternativa à terceirização e às parcerias público-privadas. O Estado precisa aprender a terceirizar, fiscalizar, controlar e punir desvios quando ocorrerem.
Essas são, para mim, as três grandes prioridades para 2026.














