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Hospitais filantrópicos e o papel na saúde pública

O Dia do Hospital, celebrado em 2 de julho, é uma oportunidade para lembrar que a saúde pública não se faz apenas com leis, estruturas e sistemas. Ela se faz, todos os dias, no encontro entre quem precisa de cuidado e quem está preparado para atender.

A história das Santas Casas ajuda a entender esse papel. A primeira Santa Casa do Brasil foi fundada em Santos, em 1543, por Brás Cubas. Muito antes de o país organizar uma política pública de saúde, essas instituições já acolhiam enfermos e pessoas em situação de vulnerabilidade. Nasceram do cuidado e da responsabilidade coletiva.

Criado pela Constituição Federal de 1988 e regulamentado em 1990, o Sistema Único de Saúde ampliou o acesso da população aos serviços de saúde. Mesmo assim, as Santas Casas e os hospitais filantrópicos seguem desempenhando papel decisivo na assistência hospitalar, especialmente no interior do país.

Segundo o estudo Hospitais Filantrópicos e as Santas Casas, publicado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde e pela Umane, 94% dos hospitais filantrópicos prestam algum tipo de serviço ao SUS. O levantamento também aponta que essas instituições somam mais de 180 mil leitos e responderam, em 2023, por 28% da produção hospitalar do sistema público.

Esses dados mostram que parte importante do SUS acontece dentro de instituições privadas sem fins lucrativos, contratadas ou conveniadas pelo poder público. São hospitais que recebem pacientes, realizam exames, cirurgias, partos, internações e atendimentos de urgência. Muitas vezes, são também a principal referência para quem vive em cidades menores.

Na Santa Casa de Bragança Paulista, vejo essa realidade de perto. O Complexo Hospitalar atende 11 municípios e uma população estimada em mais de 500 mil pessoas. São mais de 1.800 profissionais, mais de 450 médicos e 153 leitos, dos quais 66 são destinados ao SUS.

Em 2025, foram registradas 89.502 consultas pelo SUS no pronto atendimento. No mesmo período, a Santa Casa realizou 2.701 cirurgias pelo SUS, 804 partos pelo sistema público, 79.301 exames de imagem e 1.244.091 exames laboratoriais.

Por trás de cada número há uma pessoa: uma mãe em trabalho de parto, um idoso aguardando um exame, uma criança chegando ao pronto atendimento, uma família buscando respostas em um momento de medo. É isso que dá sentido ao trabalho hospitalar.

Um hospital regional não atende apenas à cidade onde está instalado. Recebe pacientes de municípios vizinhos, apoia a rede de urgência, organiza encaminhamentos e dá retaguarda a outros serviços. Quando essa estrutura funciona, o cuidado chega mais rápido. Quando não funciona, toda a rede sente os impactos.

Por isso, discutir hospitais filantrópicos é discutir acesso. É falar sobre tempo de espera, deslocamento, diagnóstico e continuidade do cuidado. A saúde pública precisa ser pensada a partir das pessoas e do território onde elas vivem.

Também é preciso falar de inovação de forma simples. Em um hospital, inovar não é apenas adquirir equipamentos. É organizar melhor os fluxos, usar dados para planejar, qualificar equipes, evitar desperdícios e tornar o atendimento mais seguro.

O Dia do Hospital não deve ser apenas uma data de homenagem. Deve servir para reconhecer instituições que sustentam parte importante da assistência pública no país e, principalmente, para lembrar que saúde se faz com presença, preparo e compromisso.

A tradição das Santas Casas, iniciada no acolhimento aos mais vulneráveis, permanece atual em um cenário de demandas crescentes e redes de saúde cada vez mais complexas. Nesse contexto, o desafio continua o mesmo: garantir que, quando alguém procura um hospital, encontre estrutura, equipe preparada e cuidado efetivo, de forma contínua, resolutiva e, acima de tudo, humana.

Por João José Marques, provedor do Complexo Hospitalar Santa Casa de Bragança Paulista

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