Casa de Saúde Menino Jesus de Praga integra monitoramento, interoperabilidade e IA à assistência de pacientes com alta dependência de cuidados
A incorporação de tecnologias de monitoramento contínuo, interoperabilidade e Inteligência Artificial na saúde começa a avançar também em estruturas assistenciais fora do ambiente hospitalar tradicional. Em Porto Alegre (RS), a Casa de Saúde Menino Jesus de Praga (CSMJP) implantou uma UTI Inteligente voltada ao acompanhamento de crianças, adolescentes e adultos com lesões neurológicas e motoras graves e dependência total de cuidados.
Com investimento aproximado de R$ 3 milhões, o modelo reúne monitoramento contínuo, prontuário eletrônico, interoperabilidade entre equipamentos e recursos de Inteligência Artificial. A tecnologia já opera nos núcleos da instituição e passa a integrar também a Casa do Futuro, novo espaço com 12 leitos e infraestrutura de nível hospitalar.
Integração entre equipamentos e prontuário
Na prática, o ecossistema conecta o prontuário eletrônico SOUL MV à Central de Monitoramento Contínuo da Carenet Longevity. Monitores multiparamétricos, ventiladores mecânicos e bombas de infusão enviam informações diretamente ao sistema, enquanto ferramentas da NoHarm.ai analisam prescrições, possíveis interações medicamentosas e alterações que demandam avaliação da equipe.
Um dos pontos centrais do modelo está justamente na forma como os dados são capturados. Em vez de depender exclusivamente do registro manual de sinais e parâmetros clínicos, os equipamentos alimentam o prontuário eletrônico de maneira automática e contínua.
Com isso, a integração reduz etapas de transcrição e amplia a frequência das informações disponíveis para análise. Enquanto registros manuais tendem a representar momentos específicos do turno, o monitoramento automatizado produz uma base contínua de dados clínicos ao longo das 24 horas.
“É esse volume e essa granularidade de dados, impossíveis de alcançar apenas com registros manuais, que permitem à tecnologia apoiar a identificação precoce de alterações respiratórias, sinais sugestivos de infecção e sepse, oscilações importantes da pressão arterial e mudanças no padrão clínico do acolhido”, afirma Rute Somensi, gerente de Saúde e Assistência da Casa de Saúde Menino Jesus de Praga.
Segundo ela, a combinação entre histórico clínico e monitoramento permanente pode apoiar a equipe na identificação de situações que precisam ser avaliadas antes de evoluírem para quadros mais graves.
Indicadores refletem mudanças assistenciais
Além da integração tecnológica, os indicadores da instituição mostram mudanças relevantes no período recente. Em 2025, na comparação com as médias registradas entre 2022 e 2024, houve redução de 73% nas internações hospitalares externas e queda de 57% na taxa de óbitos. As visitas familiares cresceram 130%, movimento que a instituição relaciona à maior estabilidade clínica dos acolhidos.
A diminuição das transferências também produz reflexos sobre a utilização da rede hospitalar. De acordo com a Casa, aproximadamente 26 mil diárias hospitalares de alta complexidade deixam de ser demandadas anualmente.
A estimativa apresentada pela instituição aponta um impacto econômico entre R$ 78 milhões e R$ 130 milhões por ano para o sistema público de saúde.
“Ao evitar internações, a Casa libera cerca de 26 mil diárias hospitalares de alta complexidade por ano ao sistema público de saúde”, afirma Arno Duarte, diretor executivo da instituição.
Nova estrutura amplia capacidade assistencial
Paralelamente à digitalização da assistência, a instituição avança na estrutura física. A próxima etapa desse modelo está concentrada na Casa do Futuro, espaço com 12 leitos destinados a crianças de até 10 anos.
A unidade incorpora os mesmos recursos tecnológicos a uma configuração física desenhada para pacientes com elevada dependência assistencial. O projeto reúne piso vinílico hospitalar, ilha de enfermagem, maior espaçamento entre leitos e corredores, entrada de luz natural, iluminação individualizada e dimerizada e equipamentos móveis para atendimento à beira-leito.
Além disso, conceitos de neuroarquitetura, design biofílico, acessibilidade e humanização orientaram a concepção do ambiente.
Segundo Duarte, a tecnologia foi incorporada com o objetivo de reduzir tarefas operacionais relacionadas à captura e integração de informações e ampliar o tempo disponível dos profissionais para a assistência direta.
Dados antes da Inteligência Artificial
Nesse contexto, a experiência da instituição também chama atenção para uma discussão recorrente na transformação digital da saúde: a necessidade de estruturar dados e processos antes da adoção de ferramentas mais avançadas.
Mais do que introduzir novas soluções, o modelo busca conectar equipamentos, sistemas e equipes. A Inteligência Artificial passa, assim, a atuar sobre uma infraestrutura previamente organizada e sobre uma base contínua de informações clínicas.
“Não começamos pela IA. Começamos pela infraestrutura, pelos dados, pela integração e pelas pessoas”, afirma Duarte.
Financiamento permanece como desafio
A implantação tecnológica exigiu investimento de aproximadamente R$ 3 milhões em softwares, dispositivos clínicos, serviços e profissionais. Os recursos vieram de emendas municipais, estaduais e federais, do Fundo para Reconstituição de Bens Lesados do Rio Grande do Sul e de doações de pessoas físicas e jurídicas.
Apesar dos avanços assistenciais e tecnológicos, a sustentabilidade financeira continua sendo um dos pontos de atenção da operação. Atualmente, 70% dos recursos da Casa são provenientes de convênios e contratos com o poder público. Os 30% restantes dependem de doações, voluntariado, bazar e projetos sociais.
Fundada há 42 anos, a Casa de Saúde Menino Jesus de Praga mantém atendimento permanente a 60 crianças, adolescentes e adultos com lesões neurológicas e motoras graves. A operação reúne cerca de 180 profissionais e, com a nova estrutura, amplia o uso de monitoramento contínuo, interoperabilidade e análise automatizada de dados no cuidado de longa permanência de alta complexidade.














