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SAÚDE 10: Construir para continuar mudando

Andre Mofato, diretor de Gestão de Negócios do Grupo Fator, analisa como estratégia e pré-construção redesenham hospitais

Hospitais não são edifícios estáticos. Mudam com a tecnologia, com os modelos assistenciais, com novas exigências regulatórias e com a própria forma de cuidar. Para Andre Mofato, diretor de Gestão de Negócios do Grupo Fator, compreender essa dinâmica é condição básica para planejar empreendimentos capazes de atravessar décadas sem perder eficiência, segurança ou capacidade de adaptação.

Formado em Matemática, com MBA em Gestão de Negócios, mestrado em Economia pela FGV e especialização em negócios imobiliários pela University of Southern California (USC), Mofato construiu uma trajetória que combina estratégia, finanças, gestão e execução de projetos complexos. Também leva esse repertório à sala de aula, como professor de cursos de especialização da FGV. Antes de concentrar sua atuação na saúde, participou de obras industriais para empresas como Volkswagen Caminhões, Audi, Renault, Peugeot/Citroën, Volkswagen e Ford.

Há 15 anos, direciona essa experiência para a construção hospitalar em diferentes regiões do país. Entre os projetos de sua trajetória estão o Hospital das Américas, da Amil, no Rio de Janeiro; o Centro Oncológico Barra, da Dasa; e hospitais Unimed em Governador Valadares, Nova Iguaçu e Maceió.

Essa combinação de repertórios ajuda a explicar uma visão menos convencional sobre o setor. Para Mofato, os maiores ganhos não estão apenas em executar melhor uma obra, mas em antecipar decisões, envolver quem futuramente operará o hospital e projetar estruturas preparadas para mudar.

A seguir, ele discute riscos, industrialização, tecnologia e os princípios que considera inegociáveis na construção dos hospitais do futuro.

1. Como sua trajetória multidisciplinar influencia suas decisões hoje?

Avaliar as questões por diferentes pontos de vista permite encontrar soluções que podem nos diferenciar da forma convencional como o mercado costuma endereçar esses desafios.

2. Que lógica da construção convencional não funciona quando o projeto é um hospital?

Hospitais são organismos vivos, em constante desenvolvimento. Por isso, a obra nunca fica completamente pronta.

Além da necessidade de atender às normas, como a RDC 50, existem sistemas que não podem parar e, portanto, exigem redundância e soluções mais complexas. As instalações prediais acabam influenciando diretamente a arquitetura e a estrutura da edificação.

Há ainda outras particularidades, como a inexistência de pavimentos completamente “tipo” e a necessidade de acabamentos específicos.

3. Na sua experiência, que decisões de planejamento mais exigem visão estratégica?

Com certeza, as decisões de projeto são as que mais demandam visão estratégica nesse segmento.

Defendemos uma fase de pré-construção com a participação da construtora, da gerenciadora, dos projetistas e, principalmente, do cliente, representado também pelos responsáveis pela futura operação de áreas como emergência, enfermarias, internações, UTIs, centros cirúrgicos, diagnóstico por imagem e cozinha.

4. Como conciliar expansão, inovação e sustentabilidade financeira?

Em função da constante evolução dos processos de tratamento, os empreendimentos hospitalares precisam de estruturas modulares, que permitam mudanças de uso e expansões com baixo impacto sobre a operação.

Isso contribui para reduzir tanto os custos das intervenções quanto seus impactos financeiros sobre o funcionamento do hospital.

5. Que aprendizados da sua trajetória mais ajudam a antecipar riscos em grandes projetos?

Quando chegamos aos 60+, aprendemos a valorizar ainda mais a experiência. A mudança é uma constante durante uma obra, e um processo transparente de gestão dessas mudanças ajuda os stakeholders a compreender e decidir melhor sobre cada alteração, considerando os impactos no negócio, nos custos e nos prazos.

Setores como diagnóstico por imagem e cozinha estão entre os que mais costumam gerar complicações ao longo do desenvolvimento do empreendimento.

6. Como a tecnologia está mudando a engenharia hospitalar?

Em todas as áreas da construção, a dificuldade de encontrar mão de obra cria obstáculos e pode até inviabilizar a execução de um projeto dentro do planejamento inicial.

Por isso, a industrialização é quase inevitável. Já temos exemplos importantes, como projetos em BIM, estruturas modulares, instalações prediais pré-montadas, drywall e fachadas industrializadas em painéis.

Ao mesmo tempo, o próprio hospital passa por uma evolução, com edifícios cada vez mais inteligentes, os chamados smart hospitals, utilizando Internet das Coisas (IoT), localização por RFID, automação e manutenção preditiva.

7. O que diferencia um projeto hospitalar bem planejado desde a origem?

Um projeto bem planejado é fundamental para que o hospital seja construído dentro do prazo, do orçamento e, principalmente, atendendo às expectativas de desempenho dos usuários.

Por isso, defendemos fortemente uma fase de pré-construção, ou pré-engenharia, com a participação da construtora desde a origem do projeto.

8. O que sua experiência em estratégia e gestão trouxe de mais valioso para a construção hospitalar?

Nossa capacidade de resolver problemas aumenta muito com a experiência, mas acredito que os maiores ganhos estão justamente na capacidade de evitá-los.

Isso passa pelo envolvimento de equipes multidisciplinares no tratamento de questões críticas, combinando inteligência emocional e diversidade de perspectivas. Conhecer também como o equipamento hospitalar será utilizado ajuda muito a compreender todos os cuidados necessários no momento de construir.

9. Sob pressão de prazo e orçamento, o que não pode ser negociado?

Qualidade e segurança. O atendimento às normas, o uso das melhores práticas e a segurança da operação jamais podem ser negociados em função do prazo de entrega ou do custo da obra.

10. Como serão planejados os hospitais do futuro?

Entendemos que os hospitais devem ceder cada vez mais espaço à tecnologia. Teremos plataformas capazes de se adaptar às mudanças, com estruturas resilientes para enfrentar desafios como os vividos durante a pandemia. Isso reforça também a necessidade de avançarmos na industrialização e na construção modular.

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