O avanço dos testes genéticos tem reposicionado a oncogenética como um dos eixos mais relevantes na estratégia de prevenção e tratamento do câncer. A ampliação do acesso a esses exames, impulsionada por novas tecnologias e modelos de oferta, vem acompanhada de um alerta recorrente entre especialistas: a interpretação dos dados ainda depende de critérios clínicos rigorosos e não pode ser dissociada do contexto assistencial.
A discussão ganha visibilidade com o Dia do DNA, celebrado em 25 de abril, que reforça o papel da genética na saúde e, ao mesmo tempo, expõe os limites atuais dessa ferramenta no enfrentamento do câncer.
Predisposição não é diagnóstico
Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam que apenas entre 5% e 10% dos casos de câncer têm origem hereditária. A maior parte continua associada a fatores ambientais, envelhecimento e estilo de vida. Ainda assim, a identificação de mutações específicas, como nos genes BRCA1 e BRCA2, tem impacto direto na definição de estratégias de rastreamento, diagnóstico precoce e tratamento.
A diferença entre risco e diagnóstico é um dos pontos centrais do debate. Testes genéticos indicam probabilidade ao longo da vida, não a certeza de desenvolvimento da doença. Isso significa que a presença de uma mutação não determina necessariamente o surgimento do câncer, assim como sua ausência não elimina o risco.
Expansão do acesso
Nos últimos anos, a popularização de testes genéticos fora do ambiente clínico, especialmente os voltados à ancestralidade ou comercializados diretamente ao consumidor, ampliou o alcance dessas ferramentas, mas também introduziu ruídos na interpretação dos resultados.
Segundo a médica geneticista Luissa Hikari Hayashi Araujo, do Instituto de Oncologia do Paraná (IOP), é fundamental distinguir exames recreativos de testes clínicos voltados à avaliação de risco hereditário. Nem toda alteração genética identificada representa aumento significativo de risco, e a leitura desses dados exige acompanhamento especializado.
Impacto na assistência e no tratamento
Quando bem indicados, os testes genéticos alteram a condução clínica. Em casos específicos, como câncer de mama associado a variantes patogênicas, o resultado pode redefinir decisões cirúrgicas e terapêuticas, permitindo abordagens mais direcionadas.
Além disso, a oncogenética já permite mapear predisposições para diferentes tipos de câncer, incluindo mama, ovário, próstata, colorretal e pâncreas. Esse avanço sustenta estratégias de acompanhamento mais próximas e personalizadas, com potencial de reduzir riscos ou identificar tumores em estágios iniciais.
Limites técnicos e necessidade de governança clínica
Apesar da evolução dos painéis multigênicos, ainda há limitações. Nem todos os casos de câncer hereditário são detectáveis pelos exames disponíveis, o que mantém o histórico familiar e a avaliação clínica como elementos centrais na definição de condutas.
A incorporação da oncogenética na rotina assistencial tem avançado dentro de modelos multidisciplinares, como no IOP, onde o aconselhamento genético integra a jornada do paciente e orienta decisões baseadas em evidências.
Entre inovação e responsabilidade
A expansão dos testes genéticos coloca a informação como ativo estratégico na saúde, mas também amplia a necessidade de governança sobre seu uso. A predisposição genética, quando bem interpretada, abre caminho para prevenção e personalização do cuidado. Quando descontextualizada, pode gerar distorções e decisões inadequadas.
Nesse cenário, a genética se consolida como ferramenta complementar, não substituta, de um modelo assistencial que ainda depende de fatores clássicos, como hábitos de vida, prevenção e acompanhamento clínico contínuo.














