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Faustino Júnior propõe novo modelo organizacional para o mercado médico

Para Faustino Júnior, poder nunca esteve associado ao cargo, mas à responsabilidade pelas consequências. Essa compreensão orienta a maneira como ele observa o mercado médico e explica a criação do MedClub, iniciativa que propõe reorganizar a atuação profissional a partir de uma lógica de comunidade estruturada e infraestrutura compartilhada.

Com atuação nos setores de educação, saúde e inovação, Faustino parte de um diagnóstico direto: o modelo tradicional de consultórios isolados tornou-se progressivamente ineficiente diante das transformações no comportamento do paciente, da pressão por produtividade, da complexidade regulatória e da crescente judicialização da medicina. Segundo ele, o problema não é técnico, mas organizacional e, portanto, exige redesenho estrutural.

“Reagir à pressão mantém o sistema funcionando. Moldar o futuro exige questionar premissas aceitas”, afirma. Na sua leitura, o mercado médico brasileiro ainda opera de forma atomizada, com alto custo fixo, baixa previsibilidade de receita e pouca integração entre formação, gestão e prática clínica. O resultado é um profissional altamente qualificado tecnicamente, mas frequentemente exposto a riscos empresariais para os quais não foi preparado.

O MedClub surge como resposta a essa fragmentação. Não como um clube de networking ou uma plataforma de cursos, mas como uma estrutura organizacional que conecta médicos a serviços, tecnologia e suporte empresarial. Definido como o primeiro membership e único ecossistema criado especificamente para o desenvolvimento integral de negócios médicos, o MedClub propõe a capacitação técnica e empreendedora voltada à construção de operações escaláveis e recorrentes.

A proposta é permitir que o profissional concentre energia na prática clínica enquanto a gestão operacional, a logística, a inteligência de agenda e parte da experiência do paciente são organizadas de maneira integrada.

O modelo inclui acesso a soluções como aplicativos de atendimento, suporte jurídico e contábil especializado, oportunidades de formação continuada e presença estruturada em clínicas parceiras. Mais do que ampliar portfólio, a intenção declarada é reduzir ineficiências históricas do exercício individualizado da medicina, criando escala sem descaracterizar a autonomia técnica do profissional.

Para Faustino, essa decisão não foi apenas estratégica, mas cultural. “As decisões mais difíceis são aquelas que rompem zonas de conforto institucionalizadas. Tecnicamente defensáveis, mas politicamente incômodas”, afirma. Ao propor que médicos adotem uma lógica de ecossistema em vez da autonomia isolada, ele confronta um modelo historicamente associado à identidade da profissão.

A incorporação de tecnologia é outro ponto sensível. Ele defende que a digitalização da jornada — do agendamento à gestão de relacionamento — não pode ser tratada como tendência, mas como requisito de governança, rastreabilidade e previsibilidade financeira. Ainda assim, faz um alerta: inovação não pode ser confundida com velocidade. “No setor da saúde, decisões precipitadas produzem efeitos que não podem ser revertidos por narrativa ou marketing.”

Na tensão entre eficiência econômica e responsabilidade social, estabelece um limite claro: a integridade do cuidado não é negociável. Para ele, eficiência sem ética produz ganhos imediatos e passivos futuros, comprometendo a sustentabilidade institucional. A reorganização do mercado médico, portanto, precisa combinar racionalidade empresarial com responsabilidade assistencial.

A aposta em comunidade também responde ao que considera um erro recorrente entre executivos: confundir visibilidade com autoridade. “Autoridade se constrói pela repetição de decisões coerentes ao longo do tempo.” Nesse sentido, legado não está ligado à expansão nominal de projetos, mas à capacidade de criar estruturas que funcionem independentemente da presença do fundador — estruturas capazes de manter padrão decisório e coerência estratégica mesmo sob pressão.

Ao estruturar o MedClub como ecossistema integrado — conectando formação, prática médica, suporte empresarial e tecnologia — Faustino tenta deslocar o debate da figura do médico individual para o desenho do sistema que o sustenta. A proposta, mais do que oferecer serviços, questiona o formato tradicional de organização da atividade médica no país e introduz uma lógica de governança compartilhada.

Em um ambiente de crescente complexidade regulatória, pressão por resultados e transformação digital acelerada, sua leitura é objetiva: quem apenas reage administra crises; quem antecipa redesenha o modelo. Para ele, liderar no setor da saúde continua sendo assumir decisões que produzem efeitos duradouros — inclusive quando elas desafiam estruturas consolidadas e interesses estabelecidos.

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