À frente da ABIMED desde 2019, Fernando Silveira Filho analisa os desafios da liderança no setor da saúde, a complexidade da representação institucional e a necessidade de políticas de longo prazo para ampliar o acesso, garantir sustentabilidade e orientar o futuro do sistema brasileiro.
“Saúde no Brasil é um setor em que o cobertor é curto: os recursos são limitados, os interesses são múltiplos e a sustentabilidade precisa conviver com o cuidado às pessoas.”
Liderar no setor da saúde exige mais do que capacidade executiva. Requer sensibilidade para lidar com o impacto direto das decisões na vida das pessoas, visão sistêmica para administrar interesses conflitantes e maturidade para atuar em um ambiente marcado por restrições orçamentárias, pressão regulatória e demandas crescentes por inovação. Essa é a síntese da leitura de Fernando Silveira Filho, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Tecnologia para Saúde (ABIMED), sobre o papel da liderança no contexto atual da saúde brasileira.
Com mais de três décadas de atuação em empresas nacionais e multinacionais, no Brasil e no exterior, Fernando acompanhou de perto a transformação do conceito de liderança ao longo do tempo. Para ele, o exercício da liderança deixou de ser apenas uma função operacional para assumir uma dimensão mais ampla, conectada às expectativas da sociedade e à compreensão do entorno dos negócios. “Hoje, quem ocupa posições de liderança precisa observar o todo e responder às diferentes demandas de cada momento”, afirma.
Essa evolução também passa por um processo de autocrítica. Ao relembrar o início da carreira, Fernando reconhece que a experiência impõe ajustes de postura, ritmo e escuta. A maturidade, segundo ele, não elimina os desafios, mas amplia a capacidade de lidar com eles de forma mais equilibrada. Liderar, reforça, é uma escolha que exige consciência sobre o nível de responsabilidade envolvido.
No setor da saúde, esses desafios se intensificam. Trata-se de um ambiente singular, no qual decisões econômicas convivem diretamente com aspectos emocionais e sociais. Garantir o atendimento aos pacientes, ampliar o acesso às tecnologias e, ao mesmo tempo, manter a sustentabilidade financeira do sistema é um exercício permanente de equilíbrio. “É um setor em que você precisa decidir com múltiplas variáveis e com atores que, muitas vezes, têm interesses divergentes”, observa.
A experiência de Fernando à frente da ABIMED adiciona uma camada extra de complexidade a esse cenário. Diferentemente da liderança em uma única empresa, comandar uma associação que representa cerca de 65% do mercado brasileiro de dispositivos e equipamentos médicos implica arbitrar interesses distintos, oriundos de segmentos com realidades, demandas e desafios próprios. O papel da entidade, nesse contexto, é construir um alinhamento institucional capaz de representar o setor de forma consistente e legítima.
Segundo ele, a atuação em uma associação exige equilíbrio, equidistância e capacidade de gestão das expectativas das empresas associadas, expressas em conselhos, comitês e grupos de trabalho. Não se trata apenas de buscar resultados, mas de harmonizar visões e construir consensos mínimos que permitam avanços estruturais para o setor como um todo.
Essa lógica também orienta a participação da ABIMED na curadoria e moderação de debates estratégicos, como no Welcome Saúde, evento que se consolidou como marco de abertura do calendário político da saúde no país. Para Fernando, moderar conversas em um fórum desse porte envolve administrar o tempo, garantir espaço para diferentes visões e extrair o melhor de cada participante, respeitando perfis, estilos e níveis de protagonismo distintos.
“Não existe solução mágica para a saúde. O que existe é a necessidade de construir políticas de Estado, com visão de longo prazo, capazes de sustentar o sistema ao longo das próximas décadas.”
Ao analisar o cenário de 2026, Fernando aponta fatores que tornam o debate ainda mais sensível. O ambiente eleitoral, as restrições fiscais e as discussões em torno do orçamento público impõem desafios adicionais à saúde, tanto no curto quanto no médio prazo. Nesse contexto, temas como financiamento, sustentabilidade, inovação tecnológica e fortalecimento do complexo econômico-industrial da saúde ganham centralidade.
Para ele, ampliar o acesso à saúde vai além de garantir atendimento. Envolve assegurar que a população tenha acesso a tecnologias mais eficientes, melhores condições de cuidado e soluções que tragam ganhos de qualidade e eficiência ao sistema. Essa equação, no entanto, só se sustenta com planejamento e decisões baseadas em dados concretos, e não apenas em percepções ou discursos de ocasião.
Fernando defende que o setor precisa romper com a lógica de decisões de curto prazo que marcou as últimas décadas. Em sua avaliação, é fundamental definir, desde já, que modelo de sistema de saúde o país deseja construir nos próximos 20 ou 30 anos, estruturando políticas públicas, marcos regulatórios e estratégias econômicas alinhadas a essa visão. A pandemia, segundo ele, deixou claro o custo de não antecipar cenários e de não investir em planejamento estruturado.
A contribuição da ABIMED para esse debate, explica, está na produção contínua de conhecimento técnico, econômico e regulatório, desenvolvido a partir da atuação dos comitês e da experiência acumulada pelas empresas associadas. O objetivo é oferecer subsídios que ajudem a qualificar as decisões e a sustentar políticas de longo prazo, com impacto real sobre o acesso e a sustentabilidade do sistema de saúde.
Ao olhar para a própria trajetória, Fernando evita destacar episódios específicos, mas ressalta a importância do aprendizado contínuo e da capacidade de reconhecer e corrigir erros com rapidez. Para ele, liderar também é saber dosar ansiedade, entender o momento de acelerar ou desacelerar e manter abertura para novas perspectivas.
Se pudesse resumir esse aprendizado em um conselho ao profissional que iniciou sua carreira décadas atrás, a mensagem seria direta: “pega leve”. Um convite à reflexão, à escuta e à construção de decisões mais conscientes; valores que, no setor da saúde, fazem diferença não apenas nos resultados, mas na vida das pessoas.














