Plataforma Healthcare Management. Ideias, Tendências, Líderes e Práticas - Healthcare Management

“Não dá para solucionar o problema do Brasil de forma isolada”: ABIMED lança o OPS 2050

Iniciativa, em parceria com a FIA, propõe monitorar indicadores, construir cenários prospectivos e articular diferentes atores do setor para transformar a saúde brasileira em uma política de Estado até 2050

Em meio aos debates sobre inovação, sustentabilidade e modernização regulatória que marcam a Hospitalar 2026, a ABIMED escolheu o evento para lançar oficialmente o Observatório Permanente da Saúde — OPS 2050, iniciativa desenvolvida em parceria com a FIA Business School com o objetivo de construir uma agenda contínua de monitoramento, análise e proposição estratégica para o futuro da saúde no Brasil.

Para além de um estudo prospectivo, o projeto nasce com a proposta de atuar como plataforma permanente de articulação entre indústria, governo, academia, prestadores de serviço, operadoras, entidades setoriais e especialistas, buscando transformar temas historicamente fragmentados em uma agenda estruturada de longo prazo para o setor.

Durante o lançamento, Fernando Silveira Filho, CEO e presidente executivo da ABIMED, afirmou que o OPS 2050 surge da percepção de que a saúde brasileira precisa deixar de ser tratada sob ciclos curtos e passar a ser pensada como política de Estado.

“Existe, evidentemente, a necessidade de que transformemos a saúde no país em política de Estado. Não é possível continuarmos a pensar em anos à frente”, afirmou.

Segundo o executivo, o observatório integra as ações estratégicas da entidade em celebração aos 30 anos da ABIMED, comemorados em junho, e busca estabelecer uma estrutura contínua de construção coletiva para o setor. “A continuidade e a permanência do Observatório Permanente da Saúde 2050 é garantida pelo compromisso estratégico da ABIMED em manter, em suas atividades anuais, a complementaridade, a continuidade e a inclusão de todos os atores do setor de saúde”, destacou.

A proposta do observatório parte de uma questão central apresentada por Fernando Silveira Filho durante o evento: se o Brasil conseguirá construir coordenação institucional suficiente antes que fatores como envelhecimento populacional, mudanças climáticas e pressão financeira tornem o sistema de saúde operacionalmente insustentável.

Para responder a essa questão, o Observatório foi estruturado a partir de sete grandes eixos considerados estratégicos para o futuro da saúde até 2050: evolução digital; tecnologia e inovação; expansão e infraestrutura; acesso e qualidade; legislação, regulação e segurança jurídica; mudanças climáticas; e custo Brasil e tributação.

A construção metodológica do OPS 2050 também incorpora benchmarking internacional, análise de indicadores comparativos e projeções de longo prazo. O estudo utiliza referências de países como Canadá, Reino Unido, Japão, Estados Unidos, México, Colômbia e membros da OCDE, além de mais de 40 horas de entrevistas e pesquisas conduzidas com especialistas e lideranças do setor.

Ao longo da apresentação, Fernando Silveira Filho explicou que a iniciativa parte da constatação de que o Brasil possui desempenho incompatível com o tamanho de sua economia em indicadores globais relacionados à saúde e desenvolvimento humano.

“Hoje o Brasil ocupa a 84ª posição no IDH do mundo e nós temos a décima economia do mundo. A grande meta para a saúde do Brasil seria, de alguma maneira, contribuir para que a gente estivesse entre os dez principais países do mundo”, afirmou.

A partir dessa análise, foram estruturados quatro cenários prospectivos para o sistema de saúde brasileiro até 2050: vegetativo, medicado, limiar e regenerativo. A nomenclatura faz referência a estados clínicos de pacientes e busca ilustrar diferentes possibilidades de evolução do sistema de saúde conforme o nível de integração, governança, capacidade de gestão e sustentabilidade econômico-financeira alcançados pelo país nas próximas décadas.

Segundo Fernando, o cenário regenerativo representa o objetivo central da iniciativa: um modelo capaz de renovar continuamente sua capacidade de resposta diante de transformações tecnológicas, sociais, climáticas e demográficas.

A apresentação também destacou fatores considerados determinantes para a configuração da saúde nas próximas décadas, como inteligência artificial, monitoramento corporal, envelhecimento populacional, solidão estrutural, migrações climáticas, urbanização acelerada e reorganização das relações de trabalho.

Nesse contexto, integração, governança e gestão apareceram como elementos centrais para qualquer cenário futuro possível. “Não dá para solucionar o problema do Brasil de forma isolada”, afirmou o executivo ao defender maior articulação entre setores público e privado, entidades associativas, academia e indústria.

Representando a FIA, o professor doutor Carlos Honorato apresentou a estrutura da plataforma digital que sustentará o observatório, concebida como um ambiente dinâmico de integração de dados, indicadores e análises estratégicas.

Segundo Honorato, o projeto tem a ambição funcionar como um portal vivo de informações sobre saúde, permitindo acompanhamento contínuo de indicadores nacionais e internacionais, interoperabilidade com outras bases de dados e atualização permanente das análises produzidas.

“O que as pessoas falam muito no Brasil é que falta projeto, falta olhar para o futuro e nós estamos aqui oferecendo uma oportunidade inclusive de integração”, afirmou.

A plataforma já começa a operar com indicadores relacionados a infraestrutura hospitalar, acesso, inovação, tributação, regulação e sustentabilidade, além de conexões com bases públicas de informação do SUS. O objetivo é expandir gradualmente o monitoramento para 34 indicadores globais e nacionais até 2050.

Durante o evento, Juliana Salvático Vicente, head de portfólio de saúde da Informa Markets, relacionou o lançamento do observatório ao potencial estrutural do setor de saúde brasileiro. “O mercado está pronto, a saúde está pronta, só precisa organizar isso e fazer com que o trabalho em conjunto aconteça”, afirmou.

Encerrando o lançamento, Eduardo Winston, presidente do conselho de administração da ABIMED, reforçou que o OPS 2050 foi concebido para ultrapassar os interesses específicos da indústria de dispositivos médicos e funcionar como plataforma ampla de construção coletiva para o setor de saúde brasileiro.

“O sucesso dele vai depender de todos os setores da cadeia terem a consciência e a coragem de assumir o protagonismo de construir propostas para a saúde do Brasil”, declarou.

Ao lançar o Observatório Permanente da Saúde durante a Hospitalar 2026, a ABIMED amplia sua atuação para além das pautas regulatórias e industriais e passa a ocupar também um espaço de articulação estratégica sobre o futuro da saúde no país. A iniciativa parte da premissa de que os desafios das próximas décadas — envelhecimento populacional, transformação digital, mudanças climáticas, sustentabilidade financeira e reorganização do cuidado — exigirão não apenas inovação tecnológica, mas capacidade contínua de coordenação institucional, produção de conhecimento e construção coletiva de longo prazo.

Por isso, os representantes do OPS 2050 convidam entidades, especialistas e outras instituições interessadas a apoiarem esse grande movimento politicamente neutro e transversal em direção à evolução da saúde no país em todos os sentidos.

Veja mais posts relacionados

FBAH amplia protagonismo na Hospitalar 2026

FBAH amplia protagonismo na Hospitalar 2026

Participação da Federação contou com agendas institucionais, debates estratégicos, networking, homenagens e gravações de podcasts com importantes lideranças da saúde...

Próximo Post

Healthcare Management – Edição 100

COLUNISTAS