Secretária do Ministério da Saúde lidera a transformação digital do SUS com foco em dados, acesso e soberania tecnológica.
A construção de um sistema de saúde mais integrado, eficiente e orientado por dados passa, inevitavelmente, pela transformação digital. No Brasil, essa agenda ganhou escala e centralidade nos últimos anos, consolidando-se como um dos pilares estratégicos para ampliar o acesso, qualificar a assistência e fortalecer a gestão pública. À frente desse movimento está Ana Estela Haddad, secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, cuja trajetória combina academia, gestão pública e formulação de políticas estruturantes.
Professora titular da Faculdade de Odontologia da USP, Ana Estela também participou da criação de políticas relevantes de formação em saúde e da implementação do Programa Telessaúde Brasil Redes, acumulando experiência na articulação entre educação, tecnologia e sistema público. Essa visão integrada orienta hoje a condução de iniciativas que buscam modernizar a Política Nacional de Informação e Informática em Saúde e consolidar a digitalização como ferramenta de equidade.
Em 2025, sua atuação foi reconhecida durante a cerimônia do prêmio 100 Mais Influentes da Saúde, quando foi eleita Personalidade do Ano por votação em tempo real dos participantes do evento. O reconhecimento destacou os avanços estruturantes liderados pela Secretaria de Informação e Saúde Digital, como a expansão da Rede Nacional de Dados em Saúde, o fortalecimento da telessaúde e a ampliação do acesso dos cidadãos às próprias informações de saúde.
Nesta entrevista, Ana Estela Haddad compartilha sua visão sobre o papel da transformação digital na construção de um sistema mais conectado, seguro e capaz de responder às necessidades de uma população diversa e de dimensões continentais.
Quais experiências pessoais mais influenciaram sua visão sobre o futuro da saúde no Brasil?
O potencial que políticas públicas bem desenhadas e bem articuladas politicamente têm para melhorar a vida das pessoas. Ver isso acontecer de verdade foi o que mais me influenciou e é o que me move. O maior exemplo disso na saúde é o SUS.
Em sua avaliação, quais são hoje os maiores avanços do Brasil na agenda de saúde digital?
Eu destaco a criação da Secretaria de Informação e Saúde Digital, a adesão de todo o Brasil ao Programa SUS Digital e a adoção e expansão da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) como a plataforma de interoperabilidade dos dados de saúde. A RNDS cresceu mais de 400% em três anos, passando de 700 milhões para 4,3 bilhões de registros de dados de saúde, que são tratados, enriquecidos e estrategicamente disseminados para os gestores por meio da plataforma SUS Digital Gestor, permitindo melhores tomadas de decisão, monitoramento e avaliação de políticas públicas.
Também destaco o SUS Digital Profissional, que dá acesso a dados clínicos do paciente durante a consulta, garantindo um atendimento mais seguro e de maior qualidade. E o Meu SUS Digital, aplicativo gratuito que já é o mais baixado na área da saúde, por meio do qual o usuário acompanha suas informações, atendimentos, vacinas e a caderneta digital da criança. Podemos citar ainda a expansão da telessaúde, que leva serviços de teleatendimento a 52% dos municípios brasileiros.
Integração de dados é um dos grandes desafios da saúde. Quais caminhos o país precisa percorrer para alcançar a interoperabilidade entre sistemas públicos e privados?
O Ministério da Saúde adotou o padrão Fast Interoperable Health Resources (FHIR), recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e está em fase avançada na construção da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), uma plataforma de interoperabilidade de dados.
Esses dados são enriquecidos, armazenados com segurança e disseminados por três plataformas:
- Meu SUS Digital, voltado ao cidadão, com histórico clínico, exames, vacinação, mini apps e rede georreferenciada de serviços. O app já alcançou 69 milhões de downloads e se tornou canal direto de comunicação com o cidadão.
- SUS Digital Profissional, que permite acesso ao histórico clínico durante a consulta, promovendo cuidado continuado e decisões mais seguras.
- SUS Digital Gestor, que oferece dados estratégicos para vigilância e formulação de políticas públicas.
Os dados do setor privado também estão chegando à RNDS por meio da interoperabilidade com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Como garantir qualidade, segurança e equidade na expansão da telessaúde?
A Rede Brasileira de Telessaúde realizou em 2025 cerca de 5,7 milhões de teleatendimentos. As modalidades estão definidas pela Portaria GM/MS nº 3691/2025, com códigos específicos para registro e contabilização. Estão em desenvolvimento protocolos clínicos de teleatendimento e telediagnóstico em cada especialidade, além do sistema e-SUS Tele, que integrará oferta e demanda por esse tipo de serviço.
Como a transformação digital contribui para uma gestão pública mais eficiente?
O registro eletrônico dos dados e o desenvolvimento de ferramentas analíticas, que vem sendo conduzidos pelo Departamento de Monitoramento, Avaliação e Disseminação de Informações Estratégicas do Ministério da Saúde, permitem avaliação contínua das políticas e fortalecem a saúde baseada em dados. O Ministério integra o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e aplica IA na gestão, na tomada de decisões clínicas e no diagnóstico, sempre sob supervisão humana e dentro de padrões éticos e de proteção de dados.
Como o país pode incorporar IA de forma ética e responsável?
O Governo do Brasil, por meio do Ministério de Gestão e Inovação, estabeleceu a Estratégia Nacional de Governo Digital e um modelo de governança de dados. O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República instituiu a Estratégia Nacional de Cibersegurança e está em tramitação o PL 2338, que regulamenta a IA com base na LGPD. Esse conjunto de normas oferece base sólida para o uso seguro e ético da inteligência artificial, conforme a diretriz de “IA para o Bem de Todos”.
Como a educação em saúde deve evoluir diante da digitalização?
As diretrizes curriculares já incorporam tecnologias digitais. O Ministério apoia cursos de aperfeiçoamento, especialização, mestrado e doutorado em saúde digital. Em março, formamos os primeiros 600 especialistas e outros cursos estão em andamento.
O PET-Saúde: Informação e Saúde Digital (PET-Saúde/I&SD) é uma iniciativa do Ministério da Saúde e MEC para acelerar a transformação digital no SUS. O programa reúne estudantes, docentes e profissionais do Sistema Único de Saúde em projetos de transformação digital. O edital de 2025 selecionou 91 projetos, com mais de 10 mil bolsistas em todo o país.
Qual o papel das healthtechs no fortalecimento do sistema?
A inovação é um componente essencial. O SUS Digital tem como braço de inovação o Laboratório InovaSUS Digital, disciplinado pela Portaria GM/MS nº 3.564/2024, trata-se de um ambiente interinstitucional colaborativo voltado ao desenvolvimento de soluções para fortalecer o ecossistema e a transformação digital do SUS.
Como garantir que a transformação digital beneficie, de fato, toda a população?
Os princípios do SUS, universalidade, equidade, descentralização e atenção básica como ordenadora do cuidado, orientam essa transformação. O objetivo é ampliar o acesso às ações e serviços de saúde, alcançar os vazios assistenciais com qualidade e orientar o cuidado guiado por dados.
Quais prioridades devem orientar essa jornada?
Essa jornada deve ser guiada pela soberania digital do Brasil.















