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Da interoperabilidade à tecnovigilância: ABIMED amplia debate estratégico na Hospitalar

Associação reúne especialistas da indústria, Anvisa e instituições técnicas para discutir inovação, segurança e sustentabilidade

No segundo dia de Hospitalar 2026, a programação da ABIMED, entre a Jornada Regulatória e os Diálogos ABIMED, vem consolidando uma agenda cada vez mais conectada aos desafios estruturais da saúde brasileira. Ao longo da tarde, os debates reuniram lideranças da indústria, representantes da Anvisa, especialistas em tecnologia, executivos do setor e instituições de pesquisa para discutir temas que atravessam desde interoperabilidade e inteligência artificial até tecnovigilância, compliance, sustentabilidade e modernização regulatória.

Participantes do painel Interoperabilidade em saúde: conectando sistemas, pessoas e políticas

Mais do que discussões técnicas isoladas, os painéis evidenciaram como inovação, regulação e gestão passaram a operar de forma interdependente em um setor pressionado pela velocidade da transformação digital, pela necessidade de ampliar acesso e pela busca por maior eficiência operacional e sustentabilidade.

A interoperabilidade apareceu como um dos principais eixos dessa transformação. No painel “Interoperabilidade em saúde: conectando sistemas, pessoas e políticas”, realizado no estande da ABIMED, especialistas defenderam que a integração de dados deixou de ser apenas uma agenda tecnológica para se tornar elemento central da coordenação do cuidado e da gestão em saúde.

Silvio Garcia, diretor regional de RIG SP/Sul da ABIMED e moderador da discussão, conduziu o debate que reuniu Camila Diniz, clinical advisor da InterSystems; Marco Bego, diretor-executivo do InRad/InovaHC; e Robson Matos, representante do Ministério da Saúde. Em comum, os participantes apontaram que o principal desafio atual não é mais a ausência de tecnologia, mas a capacidade de estruturar fluxos confiáveis, seguros e interoperáveis entre diferentes instituições e níveis assistenciais.

Ao defender uma visão mais centrada no paciente, Camila Diniz afirmou que “a interoperabilidade precisa ser humanizada”, reforçando que a integração de dados deve evitar que o histórico clínico seja reconstruído a cada novo atendimento. O debate também destacou o avanço da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) e a necessidade de transformar interoperabilidade em política de Estado de longo prazo.

A discussão dialogou diretamente com os painéis regulatórios realizados no mezanino da feira, especialmente aqueles voltados à rastreabilidade e à evolução dos dispositivos médicos digitais. No debate sobre UDI e EUDAMED, representantes da Anvisa, indústria e GS1 discutiram os impactos da implementação do SIUDI no Brasil e o avanço da identificação única de dispositivos médicos como ferramenta estratégica para segurança do paciente e vigilância pós-comercialização.

Palestrantes do painel IPT & ABIMED: estrutura, ciência e oportunidades para a indústria da saúde

Participaram da discussão Paulo Ferreira, assessor da GGTPS da Anvisa; Sandra Lopes Pereira, executiva de negócios do setor saúde na GS1 Brasil; Bruno Bianqueti, especialista sênior de transformação regulatória da Boston Scientific; Mariana Braga, supervisora de assuntos regulatórios da BD Brasil, como moderadora; além de Marcio Godoy, gerente de assuntos regulatórios da ABIMED.

A implementação do sistema brasileiro de identificação única foi apresentada como parte de um movimento mais amplo de amadurecimento regulatório e alinhamento internacional. “Não existe dispensa de UDI para nenhum dispositivo e nenhum caso”, destacou Paulo Ferreira ao detalhar os prazos e regras operacionais da nova etapa regulatória.

Essa preocupação com rastreabilidade, monitoramento contínuo e segurança também apareceu de forma contundente no painel sobre tecnovigilância, que reforçou o fortalecimento da vigilância pós-comercialização como um dos pilares centrais da regulação sanitária contemporânea.

Painel Tecnovigilância em dispositivos médicos: vigilância pós-comercialização e requisitos regulatórios

Moderado por Karolina Torres, head de assuntos regulatórios e qualidade da Roche Diagnóstica Brasil, o debate reuniu Maria da Glória Oliveira, especialista em regulação e vigilância sanitária da Anvisa; Maria Carmen, gerente sênior de qualidade da Edwards Lifesciences; Surya Pathak, founder e CEO da EmpowerReg AI; e Marcio Godoy.

Os especialistas defenderam que o avanço de dispositivos mais complexos, conectados e baseados em software exige sistemas de vigilância mais inteligentes, capazes de integrar múltiplas fontes de dados e identificar riscos com maior velocidade. A adoção da terminologia IMDRF para padronização de notificações e o uso crescente de inteligência artificial para análise de eventos adversos foram apresentados como movimentos que tendem a ampliar a capacidade de resposta regulatória nos próximos anos.

A transformação digital da saúde também esteve no centro do painel sobre revisão da RDC nº 657/2022 e cibersegurança em dispositivos médicos. Francisco Iran Cartaxo Barbosa, especialista em regulação e vigilância sanitária da Anvisa, apresentou os avanços regulatórios voltados a Software as a Medical Device (SaMD), inteligência artificial e mecanismos como o Predetermined Change Control Plan (PCCP), criado para acompanhar softwares sujeitos a mudanças frequentes.

Palestrantes do painel Revisão da RDC nº 657/2022: os desafios da cibersegurança em dispositivos médicos

Ao lado de Nadyr Grell, principal advisor em cibersegurança da UL Solutions, e de Celia Aihara, gerente de assuntos regulatórios da Philips, moderadora do painel, os debates mostraram que o desafio regulatório atual envolve equilibrar inovação acelerada, previsibilidade e proteção ao paciente.

“A cibersegurança não deveria ser tratada apenas como compliance”, afirmou Nadyr Grell. “Ela precisa ser tratada como uma questão de resiliência.”

A necessidade de colaboração entre diferentes atores do ecossistema apareceu como outro tema transversal da programação. No painel sobre a parceria entre ABIMED e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), representantes da indústria e da instituição defenderam uma aproximação mais pragmática entre empresas, ciência aplicada e infraestrutura laboratorial.

Moderado por Silvio Garcia, o encontro reuniu Ana Carolina Costa da Silva, líder de gestão de colaboração científica da Siemens Healthineers América Latina; Maria Carolina Clemente, coordenadora de inovação e novos negócios do IPT; e Tábata Quintão, analista de projetos do instituto.

Ao discutir inovação, ensaios laboratoriais, capacitação e acesso a mecanismos de fomento como Embrapii e Lei do Bem, os participantes defenderam que competitividade tecnológica depende de articulação entre indústria, centros de pesquisa e instrumentos de financiamento. “As grandes inovações em saúde nascem da colaboração”, resumiu Ana Carolina.

Especialistas do painel Um novo olhar da indústria para a Saúde – Movimento Empresarial pela Saúde

No estande da associação, a sustentabilidade do sistema de saúde também ganhou espaço nas discussões sobre o Movimento Empresarial pela Saúde (MES). O painel reuniu Eduardo Spinussi, superintendente geral da Fundação Zerrenner/Ambev; Emmanuel Lacerda, superintendente de saúde da indústria no SESI Nacional; Felipe Carvalho, diretor regional da ABIMED em Brasília; Greyce Guasselli, coordenadora do MES; Ludimilla Lopes, gerente de assuntos governamentais e saúde do ecossistema da Roche; Roberto Medeiros, superintendente de inovação e tecnologia do SENAI Nacional; e Rodrigo Filus, gerente executivo de saúde, segurança, ergonomia e plano de saúde da Volkswagen do Brasil.

A discussão mostrou como grandes empresas vêm assumindo uma postura mais ativa na gestão da saúde suplementar, especialmente em temas como prevenção, saúde mental, interoperabilidade de dados e sustentabilidade financeira dos modelos assistenciais. A inteligência de dados e a coordenação entre diferentes agentes do sistema apareceram novamente como elementos indispensáveis para enfrentar desperdícios, fragmentação e aumento de custos.

Participantes do painel Ética e Compliance – Compliance que vende: como crescer no setor de saúde sem cruzar a linha ética

Já no painel sobre ética e compliance, a programação reforçou que governança e integridade deixaram de ocupar apenas um espaço jurídico para se tornarem ativos estratégicos de reputação e sustentabilidade empresarial. Participaram Benny Spiewal, sócio gestor do SPlaw Advogados; Geyson Giglio Silva, advogado e consultor; Javier Castellanos, head jurídico da Philips Brasil; e Carina Miyamoto, gerente de legal e compliance da ABIMED.

A agenda regulatória trouxe o tema do reliance regulatório na América Latina, que discutiu como avaliações e decisões de autoridades sanitárias de referência vêm sendo utilizadas para acelerar o acesso a dispositivos médicos sem comprometer segurança e conformidade. Moderado por Vivian Zanhoto, gerente de assuntos regulatórios da J&J Vision, o debate reuniu Ana Maria Saaibi, diretora de assuntos regulatórios da Boston Scientific; André Domingos Gaban, diretor de assuntos regulatórios da Medtronic; Douglas Rodriguez Calderon, head de política regulatória Latam da Roche; e Marcio Godoy. Eles defenderam que mecanismos de reliance podem reduzir redundâncias regulatórias, ampliar eficiência técnica e acelerar a chegada de novas tecnologias ao paciente, desde que sustentados por confiança institucional, métricas compartilhadas e maior convergência entre agências da região.

Debatedores do painel Reliance regulatório na América Latina: impactos para acesso e a conformidade de dispositivos médicos

Os debates destacaram os desafios da gestão de terceiros, os impactos da Nova Lei de Licitações e a necessidade crescente de integração entre áreas comerciais, jurídicas e de compliance para garantir crescimento sustentável em um ambiente regulatório cada vez mais complexo.

Ao longo do segundo dia da programação da ABIMED na Hospitalar 2026, os debates vêm demonstrando que os grandes desafios da saúde deixaram de ser discutidos em compartimentos separados. Questões regulatórias, transformação digital, sustentabilidade econômica, inovação industrial e segurança do paciente aparecem cada vez mais conectadas, exigindo modelos mais colaborativos, estruturas regulatórias mais dinâmicas e uma capacidade crescente de integração entre os diferentes atores do ecossistema.

Com o cronograma de conteúdos até sexta-feira (22), a participação da ABIMED na feira reforça justamente essa leitura: a de que o avanço da tecnologia da saúde no Brasil dependerá não apenas do desenvolvimento tecnológico, mas da capacidade de transformar cooperação, governança e interoperabilidade em ferramentas concretas para ampliar acesso, previsibilidade e confiança em todo o sistema.

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