Com escalas cada vez menos previsíveis, hospitais buscam eficiência sem ampliar custos, sobrecarga das equipes e riscos assistenciais
Uma ausência de última hora dentro de um hospital dificilmente fica restrita à escala. Ela pressiona quem permanece no turno, aumenta a necessidade de horas extras, exige respostas rápidas da gestão e pode chegar à ponta mais sensível da operação: o atendimento ao paciente. Em um cenário no qual a demanda assistencial oscila e as equipes convivem com férias, afastamentos, turnover e contratações demoradas, organizar a força de trabalho tornou-se uma questão de eficiência operacional.
Para João Hugo Silva, fundador e CEO da Clicknurse, o desafio está na imprevisibilidade que passou a fazer parte da rotina das instituições. “O principal problema não é apenas a falta de profissionais. É a dificuldade de gerir uma operação cuja variabilidade é hoje muito maior e menos previsível – já não existe a sazonalidade previsível do passado.”
Na prática, oscilações de demanda, baixas médicas, ausências inesperadas e SLAs de contratação longos criam lacunas que precisam ser solucionadas antes de comprometer a capacidade assistencial. Quando a resposta passa repetidamente por hora extra e banco de horas, surgem outros efeitos: aumento de custos, desgaste das equipes e menor margem para absorver novos picos de atendimento.
Nesse contexto, Silva vê a flexibilidade como parte da estratégia operacional. “Flexibilidade […] é uma ferramenta de eficiência para a instituição.” A lógica é ampliar a capacidade de reação diante das oscilações sem transformar cada ausência em uma crise de escala. Afinal, como alerta o executivo, “Na saúde, uma escala incompleta não é apenas um problema de recursos humanos. É um paciente desassistido.”
Ter todos os postos ocupados, no entanto, não encerra a discussão sobre eficiência. De acordo com Silva, é preciso saber quanto custou aquela cobertura, quanto tempo foi necessário para realizá-la e se o modelo consegue se sustentar ao longo da operação.
Entre os indicadores observados estão capacidade de preenchimento, tempo para completar uma escala, custo da cobertura e continuidade dos profissionais. A leitura permite que gestores deixem de enxergar a escala como uma sequência de urgências e passem a identificar padrões, gargalos e momentos de maior pressão.
É nesse ponto que dados e tecnologia ganham espaço. Automação de matching, acompanhamento da presença e ferramentas digitais podem retirar da equipe tarefas administrativas repetitivas e melhorar a velocidade das decisões. Para Silva, porém, o avanço tecnológico precisa preservar a responsabilidade de quem está na operação. “Tecnologia não substitui a decisão humana. Ela cria as condições para que essa decisão seja mais rápida, informada e previsível.”
A inteligência artificial segue a mesma lógica. Na visão do executivo, sua função é apoiar o acesso à informação e reduzir atividades operacionais que consomem o tempo dos profissionais. “Para nós, tecnologia não é o fim. É o meio para que as pessoas tenham mais tempo, mais informação e melhores condições para cuidar de quem mais precisa.”
A própria expansão da Clicknurse mostra o tamanho da demanda por esse tipo de gestão. Em 2026, a operação brasileira saiu de cerca de 10 mil horas de enfermagem preenchidas por mês para mais de 40 mil. A base já supera 40 mil profissionais e, somadas à Clicknurse e MyCareforce, em Portugal, foram ultrapassadas 1,7 milhão de horas preenchidas.
A expansão também traz outra questão: a escala não significa padronização absoluta. “Não existe uma escala hospitalar genérica”, explica Silva. Centro cirúrgico, UTI e internação, por exemplo, possuem necessidades próprias, o que exige adaptação aos protocolos, às rotinas e às particularidades de cada instituição.
Para 2027, a Clicknurse pretende avançar em novas regiões do Brasil mantendo essa lógica de adaptação local, ao mesmo tempo em que aprofunda o uso de tecnologia e inteligência artificial na gestão da força de trabalho. A expectativa é que ferramentas como a Meire IA ganhem mais capacidade de compreender o contexto de profissionais e instituições, reduzindo fricções e antecipando necessidades.
Nesse movimento, Silva também projeta uma evolução do próprio modelo de gestão: “continuar a transformar a gestão de escalas em uma gestão mais inteligente de workforce – mais dados, mais previsibilidade e melhores decisões”, conclui.















