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SAÚDE 10: Enfermagem protagonista

James Francisco Pedro dos Santos analisa os desafios da enfermagem brasileira, com foco em valorização profissional, formação, tecnologia, liderança e participação estratégica nas políticas de saúde

Conselheiro Federal e Primeiro-Tesoureiro do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), James Francisco Pedro dos Santos construiu uma trajetória marcada pela atuação assistencial, pela docência e pela representação profissional. Natural de Osasco, em São Paulo, ele reúne experiência prática nos serviços de saúde, formação técnica especializada e participação institucional em defesa do fortalecimento da enfermagem brasileira.

Bacharel em Enfermagem pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), é pós-graduado em Urgência e Emergência pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), titulado em Terapia Intensiva Adulto pela Associação Brasileira de Enfermagem em Terapia Intensiva (ABENTI).

Ao longo de sua carreira, atuou como enfermeiro na Irmandade da Santa Casa de São Paulo, entre 2000 e 2010, e no Hospital Ipiranga, de 2010 a 2023. Também exerceu a docência na Universidade Nove de Julho (UNINOVE), na Faculdade de Guarulhos (FIG) e na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), contribuindo para a formação de novos profissionais da área.

Na representação profissional, foi conselheiro do Coren-SP entre 2018 e 2020 e presidente da entidade entre 2021 e 2024. Hoje, no Cofen, atua em um momento decisivo para a enfermagem, marcado por debates sobre valorização, condições de trabalho, formação permanente, inovação tecnológica e maior presença da categoria nos espaços de decisão.

A seguir, James Francisco Pedro dos Santos analisa os principais desafios e caminhos para fortalecer a enfermagem brasileira na próxima década.

“A enfermagem é essencial para o funcionamento dos sistemas de saúde, sejam eles públicos, privados ou filantrópicos.”

| 01. Você construiu uma trajetória que reúne assistência, ensino e representação profissional. Como essas diferentes experiências influenciam sua atuação hoje no Conselho Federal de Enfermagem?

Minha trajetória foi construída em diferentes espaços da enfermagem, e cada um deles contribuiu para a forma como compreendo os desafios da profissão. A assistência me ensinou que toda decisão precisa ter como foco principal a segurança e a qualidade do cuidado prestado à população. A docência reforçou a importância da formação permanente, da produção do conhecimento e da valorização da prática baseada em evidências. Já a atuação na representação profissional ampliou minha compreensão sobre a necessidade de fortalecer as instituições e lutar por políticas que garantam melhores condições para o exercício profissional da enfermagem.

No Conselho Federal de Enfermagem, procuro integrar essas experiências para contribuir com decisões que sejam tecnicamente fundamentadas, socialmente responsáveis e alinhadas às necessidades reais dos profissionais e da sociedade. Acredito que representar a enfermagem significa ouvir quem está na linha de frente, dialogar com diferentes setores e trabalhar para que a profissão ocupe cada vez mais espaços estratégicos na saúde brasileira. Tendo a certeza que a tomada de decisão no Conselho Federal irá impactar a vida e a família de mais de três milhões de profissionais.

| 02. A enfermagem ganhou maior visibilidade nos últimos anos, mas ainda enfrenta desafios históricos. Na sua avaliação, quais são hoje as principais prioridades para fortalecer a profissão no Brasil?

A pandemia evidenciou para toda a sociedade aquilo que nós sempre soubemos: a enfermagem é essencial para o funcionamento dos sistemas de saúde, sejam eles públicos, privados ou filantrópicos. Entretanto, a visibilidade precisa ser acompanhada por mudanças estruturais.

A valorização profissional é, sem dúvidas, uma das nossas prioridades. Conquistamos o piso salarial, mas agora lutamos para que este seja atrelado a uma jornada de 30h semanais. Condições dignas de trabalho; dimensionamento adequado das equipes; fortalecimento da formação e da educação continuada; e ampliação da participação da enfermagem nos espaços de decisão também integra a nossa lista de demandas urgentes.

Investir na produção científica, na inovação e no desenvolvimento de lideranças também é primordial. Uma profissão forte é aquela que alia ciência e prática, com competência técnica, reconhecimento social e capacidade de influenciar políticas públicas.

| 03. Historicamente, a enfermagem foi reconhecida sobretudo pelo cuidado assistencial. Hoje, você acredita que a profissão também conquistou espaço como protagonista na gestão, na formulação de políticas públicas e na liderança do sistema de saúde? O que ainda precisa avançar?

Sem dúvida houve avanços importantes. Hoje encontramos enfermeiros ocupando posições de liderança em hospitais, unidades básicas, instituições de ensino, pesquisa, órgãos gestores e diferentes instâncias da administração pública e privada. Esse crescimento demonstra a capacidade técnica e gerencial da profissão.

Entretanto, ainda há espaço para ampliar nossa participação nos processos de formulação de políticas públicas e nas decisões estratégicas do sistema de saúde público e suplementar. Contarmos com mais profissionais da enfermagem nas casas legislativas é fundamental para que consigamos avançar com os projetos de lei que versam sobre as nossas necessidades.

Acredito que estamos no caminho certo. Precisamos fortalecer a cultura da liderança desde a formação acadêmica, a consciência política, incentivar a qualificação em gestão e ampliar a presença da enfermagem em conselhos, comissões e espaços institucionais onde são definidas as políticas que impactam diretamente a assistência.

| 04. A formação dos profissionais acompanha as transformações da assistência em saúde? Quais avanços ainda são necessários para preparar a enfermagem para os desafios dos próximos anos?

A formação evoluiu significativamente nas últimas décadas, mas a velocidade das transformações na saúde exige atualização permanente. O avanço tecnológico, as mudanças demográficas e epidemiológicas e a crescente complexidade do cuidado impõem novos desafios.

Essa evolução passa pela formação de base, mas também é fundamental que seja permanente durante todo o processo de trabalho e aí o mercado de trabalho e os próprios conselhos desempenham um papel de grande importância.

O sistema Cofen/Conselhos Regionais de Enfermagem tem investido em cursos gratuitos de aperfeiçoamento. Nos últimos anos o Coren-SP, por exemplo, ofereceu mais de 800 mil vagas em cursos dos mais diversos temas e investiu em tecnologia de ponta tornando-se um dos melhores e maiores laboratórios de simulação realística da América Latina.

O Conselho Federal, junto aos Regionais tem aportado uma grande parcela de recursos financeiros para promover programas de pós-graduação stricto-sensu, desenvolvimento tecnológico, como posso citar o SIGEN – Sistema de Gestão da Enfermagem, e a multiplataforma Cofenplay Plus, que oferece desde cursos de idiomas a uma biblioteca virtual com mais de três mil títulos, disponíveis a todos os profissionais de enfermagem do país.

| 05. O envelhecimento da população e o crescimento das doenças crônicas ampliam a demanda por cuidados cada vez mais complexos. Como a enfermagem vem se preparando para esse novo cenário?

A enfermagem já desempenha um papel central no cuidado e na prevenção de complicações através da sua atuação na Atenção Primária à Saúde. Mas, também somos referência no cuidado dispensado na atenção especializada e nos serviços hospitalares.

O novo cenário já está posto e exige profissionais cada vez mais preparados para atuar de forma integrada, gerenciando cuidados, coordenando equipes exclusivas de enfermagem ou interdisciplinares, mas também promovendo educação em saúde. Mais do que tratar doenças, a enfermagem contribui para preservar autonomia, qualidade de vida e dignidade das pessoas.

| 06. A inteligência artificial, a teleassistência e outras tecnologias estão transformando a rotina dos serviços de saúde. Como você enxerga o papel da enfermagem nesse processo de transformação digital?

A tecnologia deve ser compreendida como uma ferramenta que fortalece o trabalho da enfermagem, nunca como um substituto da relação humana que caracteriza o cuidado.

A inteligência artificial, a teleassistência, e aproveito aqui para reforçar o ajuste do termo para telessaúde, por ser amplo e abranger a atuação de todas as profissões da saúde. Os prontuários eletrônicos e os sistemas de apoio à decisão clínica podem contribuir para aumentar a segurança do paciente, maximizar a qualidade da assistência, otimizar processos e ampliar o acesso aos serviços de saúde.

Entretanto, essa transformação exige investimento na capacitação dos profissionais e no desenvolvimento de competências digitais. A enfermagem precisa participar ativamente da construção dessas soluções para garantir que a inovação esteja sempre orientada pelas necessidades das pessoas e pelos princípios da assistência segura, ética e humanizada que já são marcas da nossa classe e razão pela qual somos considerados uma das profissões mais confiáveis do mundo.

| 07. Questões relacionadas à saúde mental, retenção de profissionais e condições de trabalho têm ocupado espaço crescente no debate. Quais estratégias considera essenciais para fortalecer e valorizar a força de trabalho da enfermagem?

Valorizar a enfermagem significa cuidar também de quem cuida. Não existe assistência de qualidade sem profissionais saudáveis, respeitados e adequadamente valorizados.

É fundamental investir em ambientes de trabalho seguros, dimensionamento adequado das equipes, prevenção da violência contra os profissionais, programas de promoção da saúde mental, oportunidades de desenvolvimento profissional e políticas de reconhecimento.

Além disso, a valorização passa pelo diálogo permanente entre gestores, entidades representativas e profissionais. O fortalecimento da enfermagem depende de políticas públicas consistentes que assegurem condições dignas para o exercício profissional em todo o país.

| 08. A enfermagem representa a maior força de trabalho da saúde brasileira. Como ampliar sua participação nas decisões estratégicas das instituições e na construção das políticas públicas?

A presença quantitativa da enfermagem precisa ser acompanhada por uma participação proporcional nos espaços de liderança e tomada de decisão.

A enfermagem possui uma visão privilegiada da realidade dos serviços porque está presente em todas as etapas do cuidado. Essa experiência prática precisa ser incorporada de forma cada vez mais consistente às decisões estratégicas do sistema de saúde e o caminho é também político. Elegermos mais representantes da enfermagem para ocupar as casas legislativas é também garantir um Sistema Único de Saúde cada vez mais forte e eficiente.

| 09. O COFEN tem ampliado sua atuação em diferentes frentes institucionais. Quais temas devem concentrar as prioridades da entidade nos próximos anos?

O Cofen continuará comprometido com sua missão de fiscalizar o exercício profissional, fortalecer a ética e promover o desenvolvimento da enfermagem brasileira.

Entre as prioridades estão a valorização profissional, a qualificação permanente, a defesa de melhores condições de trabalho, o fortalecimento da fiscalização, a modernização dos serviços oferecidos aos profissionais, o incentivo à pesquisa e à inovação, além da ampliação do diálogo institucional com os diversos atores da saúde.

Outro eixo fundamental será acompanhar as transformações tecnológicas e sociais para garantir que a regulamentação profissional continue respondendo às necessidades da população e da categoria.

| 10. Se pudesse definir três prioridades capazes de transformar a enfermagem brasileira na próxima década, quais seriam e por quê?

A primeira prioridade é a valorização profissional, porque profissionais reconhecidos, respeitados e com condições adequadas de trabalho oferecem uma assistência mais segura e de maior qualidade.

A segunda é investir fortemente na formação presencial, na educação permanente, na ciência e na inovação. A enfermagem precisa continuar evoluindo como uma profissão baseada em evidência, que produz conhecimento, incorpora tecnologias e fundamenta suas práticas nas melhores evidências científicas.

A terceira é ampliar a participação da enfermagem nos espaços de liderança e formulação de políticas públicas. Somos a maior força de trabalho da saúde e possuímos uma experiência singular na organização do cuidado. Quanto maior for nossa presença nas decisões estratégicas, maiores serão as contribuições para o fortalecimento do SUS e para a melhoria da assistência oferecida à população.

Tenho convicção de que o futuro da enfermagem brasileira passa pelo fortalecimento de seus profissionais, pelo investimento contínuo em conhecimento e pela consolidação de uma liderança cada vez mais protagonista na construção das políticas de saúde do nosso país.

Para finalizar, gostaria de deixar uma mensagem a todos os profissionais de enfermagem, “A enfermagem não é vítima, ela é protagonista da sua história”.

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