Estudo nacional aponta desconhecimento sobre fatores de risco da doença e reforça a necessidade de ampliar ações de prevenção e informação em saúde.
Um em cada quatro brasileiros não sabe que a prevenção do câncer é possível. O dado faz parte do relatório Mais Dados Mais Saúde – Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer, realizado pelas organizações Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do Instituto Nacional de Câncer.
O levantamento entrevistou 6,5 mil pessoas em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Além disso, investigou como a população percebe fatores de risco associados ao desenvolvimento da doença.
O estudo ganha relevância em um cenário de aumento dos casos da enfermidade. Segundo estimativas do INCA, o Brasil deverá registrar 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028.
Prevenção do câncer ainda enfrenta desconhecimento
Embora alguns fatores de risco sejam amplamente reconhecidos pela população, outros ainda apresentam baixo nível de conhecimento.
De acordo com a pesquisa, 90,5% dos entrevistados sabem que o tabagismo aumenta o risco de câncer. Além disso, 89,4% relacionam a doença à herança genética e 88,3% reconhecem os riscos da exposição solar excessiva.
Por outro lado, apenas 48,3% dos brasileiros associam o sedentarismo ao desenvolvimento do câncer.
Da mesma forma, o consumo de bebidas alcoólicas é reconhecido como fator de risco por 71,3% dos participantes. Já os alimentos embutidos foram citados por 70,7%, enquanto os ultraprocessados foram mencionados por 65,6%.
Segundo Luciana Grucci Moreira, chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do INCA, a diferença na percepção está relacionada à intensidade das campanhas de conscientização realizadas ao longo dos anos.
Nesse contexto, ela destaca que políticas públicas e ações educativas contribuíram para ampliar o conhecimento sobre os riscos do tabagismo.
Prevenção do câncer exige atenção a hábitos de vida
O estudo também aponta que fatores relacionados ao estilo de vida ainda são pouco associados ao câncer pela população.
A obesidade e o sobrepeso, por exemplo, são reconhecidos como fatores de risco por apenas 54,1% dos entrevistados.
Além disso, somente 55,3% relacionam o consumo frequente de bebidas adoçadas ao desenvolvimento da doença.
Apenas 53,3% dos participantes associam a baixa ingestão de frutas e verduras ao aumento do risco de câncer. Já somente 27,5% relacionam o consumo de carne vermelha ao desenvolvimento da doença.
Outro dado que chamou atenção dos pesquisadores envolve o aleitamento materno. Quatro em cada dez entrevistados desconhecem que a amamentação pode ajudar a reduzir o risco de câncer de mama.
Segundo especialistas envolvidos no estudo, ampliar o acesso à informação de qualidade é um passo importante para fortalecer estratégias preventivas.
Jovens apresentam maior exposição a fatores de risco
A pesquisa também identificou diferenças entre faixas etárias.
Os jovens de até 24 anos aparecem como o grupo que mais consome alimentos associados ao aumento do risco de câncer sem intenção de reduzir esse comportamento.
Entre eles, 32,3% afirmaram consumir ultraprocessados sem perspectiva de mudança. Além disso, 24,4% relataram o mesmo comportamento em relação às bebidas adoçadas.
No caso dos embutidos, o índice chegou a 29,5%. Já para o consumo de carne vermelha, o percentual alcançou 49,1%.
O levantamento também analisou o consumo de bebidas alcoólicas. Embora metade da população tenha declarado não consumir álcool, 16,9% dos jovens afirmaram beber sem intenção de reduzir o hábito.
Prevenção do câncer depende de informação e políticas públicas
Além dos hábitos individuais, especialistas defendem que fatores estruturais influenciam diretamente a adoção de comportamentos mais saudáveis.
Nesse sentido, a pesquisa mostra que pessoas com renda mais elevada possuem maior conhecimento sobre a relação entre atividade física e prevenção do câncer.
Entre os entrevistados com renda de até R$ 2 mil, cerca de 45% reconhecem o sedentarismo como fator de risco. Já entre aqueles com renda igual ou superior a R$ 10 mil, o percentual sobe para 59,6%.
Para os pesquisadores, os resultados podem contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias de comunicação e políticas públicas voltadas à prevenção.
Segundo Luciana Moreira, os dados ajudam a identificar quais informações os órgãos de saúde, gestores e instituições precisam reforçar junto à população.
Dessa forma, o estudo busca apoiar ações capazes de ampliar o conhecimento sobre os fatores de risco e fortalecer a prevenção do câncer no país.















